Em 2024, cerca de 41,9% das empresas industriais brasileiras já utilizavam Inteligência Artificial em suas atividades — um salto de 25 pontos percentuais em relação a 2022, quando o índice era de apenas 16,9%. O dado, da Pesquisa de Inovação (PINTEC) do IBGE, revela algo mais profundo do que uma tendência tecnológica: estamos diante de uma transformação estrutural do mercado de trabalho, que nos próximos cinco anos vai redefinir quais profissões sobrevivem, quais emergem e quem terá acesso a elas.
A Inteligência Artificial deixou de ser promessa futurista. Ela já está no atendimento ao cliente, na triagem de currículos, na manutenção preditiva das fábricas e na análise de dados que orienta decisões estratégicas. Para o trabalhador brasileiro, a pergunta não é mais se a IA vai afetar sua carreira, mas quando e como. Entender essa transformação tornou-se essencial — para profissionais, empresas e formuladores de políticas públicas.
O crescimento acelerado da IA no Brasil
O Brasil não está à margem dessa revolução. Pelo contrário: está entre os mercados mais ávidos por tecnologia inteligente. Segundo levantamentos recentes, 95% dos brasileiros já usam alguma forma de inteligência artificial, índice 10 pontos acima da média global de 85%. Essa familiaridade cria terreno fértil para a aplicação da tecnologia no ambiente corporativo.
A pesquisa do IBGE — feita em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a UFRJ — ouviu cerca de 10,1 mil empresas e constatou que o uso de IA na indústria passou de 1.619 companhias em 2022 para 4.261 em 2024, um aumento de 163,2%. As áreas que mais adotaram a tecnologia foram administração (87,9%), comercialização (75,2%) e desenvolvimento de produtos, processos e serviços (73,1%).
Esse avanço é impulsionado sobretudo pelas IAs generativas — as que criam conteúdos novos, como textos e imagens, a partir de comandos do usuário. O lançamento do ChatGPT no Brasil, em novembro de 2022, marcou o início de uma fase de aprendizado que, em apenas dois anos, transformou o ambiente corporativo. Como resume Flávio Peixoto, gerente de pesquisas do IBGE, as empresas tiveram tempo para explorar mais a fundo essas ferramentas e amadurecer seu uso.
Quem ganha, quem perde e quem fica para depois
O impacto da IA no trabalho não é uniforme: varia conforme o setor, o nível de escolaridade e o porte da empresa. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Banco Mundial, até 37 milhões de trabalhadores brasileiros poderão ser afetados de alguma forma nos próximos anos, e 2 milhões correm risco de automação completa de seus postos. É uma estimativa conservadora — mas suficiente para acender o alerta sobre a urgência de políticas de requalificação.
A assimetria é o ponto mais preocupante. As tecnologias de complementação — que ajudam o trabalhador a produzir mais — beneficiam principalmente quem já tem mais escolaridade. Ocupações de menor qualificação, por outro lado, enfrentam maior probabilidade de substituição. E, no Brasil, onde 8 a cada 10 empregos são gerados por micro e pequenas empresas que muitas vezes não acessam as tecnologias mais avançadas, essa divisão tende a se aprofundar.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que a IA deve afetar quase 40% dos empregos no mundo. Nas economias desenvolvidas, o índice chega a 60%; nas emergentes, como o Brasil, fica em 40%; e nos países de baixa renda, em 26%. Na saúde, por exemplo, metade dos empregos expostos pode se beneficiar da produtividade reforçada pela IA — mas a outra metade enfrenta risco concreto de substituição.
Já o Fórum Econômico Mundial prevê que a reviravolta tecnológica poderá eliminar 92 milhões de empregos até 2030 e, ao mesmo tempo, criar 170 milhões de novos postos. O saldo é positivo, mas a transição é dolorosa: segundo o relatório Futuro do Trabalho 2025, 41% dos empregadores planejam reduzir equipes por causa da IA. Microsoft, Amazon, Hewlett Packard e Shopify já anunciaram demissões ou ajustes estruturais motivados pela tecnologia.
Novas oportunidades e profissões emergentes
Se a ameaça de deslocamento é real, a IA também é uma máquina de criar oportunidades. Segundo o Barômetro Global de Empregos em IA da PwC, o número de vagas no Brasil que exigem habilidades em inteligência artificial saltou de 19 mil em 2021 para 73 mil em 2024 — alta de cerca de 284% em três anos. O recado é claro: o mercado está faminto por profissionais que saibam operar, treinar e supervisionar sistemas inteligentes.
As funções emergentes refletem essa nova realidade: especialistas em machine learning, analistas de dados, engenheiros de IA, consultores de ética algorítmica e desenvolvedores de soluções generativas se multiplicam nas plataformas de recrutamento. Dados da Gupy apontam aumento de 306% na busca das empresas por profissionais com conhecimento em IA — e os cargos mais procurados são técnico, operador e desenvolvedor, o que mostra que a demanda não se limita ao nível estratégico: ela percorre toda a cadeia produtiva.
A produtividade é outro sinal de que a tecnologia gera valor. Ainda segundo a PwC, setores que usam IA registraram aumento de produtividade de 4,8 vezes a taxa anterior. E um estudo da Boston Consulting Group (BCG) estima que a IA generativa pode elevar em até 30% a produtividade de áreas como Recursos Humanos no curto prazo.
A regra de ouro para atravessar a transição parece ser a capacidade de adaptação. Como sintetiza uma frase muito citada no meio corporativo: a IA não substituirá humanos, mas humanos com IA substituirão humanos sem IA. Quem usar a tecnologia como aliada largará na frente; quem permanecer alheio a ela enfrentará barreiras crescentes.
Os desafios que pedem atenção urgente
A transformação não vem sem obstáculos. Para as empresas brasileiras que já adotam tecnologias digitais avançadas, os principais entraves são os altos custos das soluções (78,6%), a falta de pessoal qualificado internamente (54,2%) e os riscos de segurança e privacidade (47,2%). Para as que ainda não adotaram nada, somam-se a escassez de recursos financeiros e o conhecimento limitado sobre as tecnologias disponíveis.
Mas o desafio mais grave é social. No Brasil, menos de 30% da população tem habilidades digitais básicas — um índice que limita severamente a capacidade dos trabalhadores de aproveitar os benefícios da IA. Ou seja: a maioria está despreparada para um ambiente em que a fluência digital deixou de ser diferencial e passou a ser requisito mínimo. Sem políticas robustas de requalificação, inclusão digital e formação contínua, a revolução da IA pode aprofundar desigualdades em vez de reduzi-las.
Há ainda a questão do viés algorítmico. Sistemas de IA podem reproduzir ou amplificar preconceitos existentes, afetando decisões de recrutamento, crédito e outros processos sensíveis. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece critérios para o tratamento de informações, mas a transparência e a auditoria constante dos sistemas seguem sendo desafios práticos para a maioria das organizações.
Conclusão
Nos próximos cinco anos, o mercado de trabalho brasileiro atravessará uma transformação sem precedentes. A Inteligência Artificial, que pulou de 16,9% para 41,9% de adoção na indústria em apenas dois anos, não é tecnologia do futuro — é realidade do presente, e acelera a cada mês. Milhões de trabalhadores serão impactados, novas profissões surgirão e a produtividade de quem souber colaborar com a máquina crescerá de forma exponencial.
O Brasil tem uma oportunidade histórica de usar a IA como aliada da inclusão produtiva — mas isso exige ação coordenada. Empresas precisam investir em capacitação. O governo precisa expandir programas de requalificação e inclusão digital. E os trabalhadores precisam abraçar o aprendizado contínuo como condição de sobrevivência profissional. O diferencial será a velocidade com que cada um souber se adaptar.
O futuro do trabalho no Brasil não será decidido pela IA, mas pelas escolhas que fizermos sobre como utilizá-la. A tecnologia é neutra; o desfecho depende de nós.
Referências
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- IABRASILNOTÍCIAS. Demanda por profissionais com IA cresceu 284% no Brasil em três anos, aponta PwC. 28 jul. 2025. Disponível em: iabrasilnoticias.com.br. Acesso em: 12 ago. 2026.
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- PWC. 2025 Global AI Jobs Barometer – Brazil Analysis. 2025. Disponível em: pwc.com. Acesso em: 12 ago. 2026.



